03 julho 2015

A verdadeira essência que a por traz da "fantástica fábrica de chocolates".



       

    Nesta linha de interpretação, a “Fantástica fábrica” de Tim Burton traz algumas lições interessantes sobre a dinâmica do capitalismo contemporâneo. Nas primeiras cenas, temos o cenário da Inglaterra dos anos 70, em processo de desindustrialização. As economias dos países centrais do capitalismo deixavam de ter seu centro nas fábricas e passavam para os serviços. A produção como tal era terceirizada geograficamente, ou seja, deslocada para os países periféricos, como os chamados tigres asiáticos e os sul-americanos. Em certo momento, Willy Wonka demite seus empregados ingleses, mas curiosamente, a fábrica continua funcionando.
            É aí que entram os oompa-loompas. Assim como os robôs, que tiram o emprego do pai do protagonista Charlie Bucket, os trabalhadores ilegais, disponíveis em abundância devido ao êxodo dos países miseráveis, contratados por salários irrisórios e desprovidos de direitos, são a nova fonte de mais-valia inesgotável do capitalismo pós-moderno. Willy Wonka não transfere sua fábrica para o Brasil, ele transfere os oompa-loompas para Londres. O pai de Mike TV, professor de geografia, replica que não existe uma Loompalândia, ao que Wonka responde com indiferença.
            Do ponto de vista do capitão de indústria, o protótipo do burguês clássico do Capital de Marx, os povos bárbaros são todos inferiores e intercambiáveis, inclusive minúsculos em estatura, pois só existem como fonte de força de trabalho. Willy Wonka não é, porém, um capitão de indústria clássico, já que pertence a um período mais “pós-moderno”. Não sem certa razão, os críticos quiseram comparar o Wonka de Johny Depp, com seus efeminados trejeitos e falsetes, a esse peculiar exemplar de aberração pós-moderna, o mais do que excêntrico soberano de “Neverland”, Michael Jackson. Ao que Depp e Tim Burton replicaram, com ironia, lembrando que Wonka, ao contrário de Jackson, odeia crianças
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            Wonka odeia crianças, mas sabe ganhar dinheiro com elas. A promoção que esconde cinco convites para um tour pela fábrica em barras de chocolate Wonka é um sucesso mundial. As cinco crianças escolhidas pelo acaso (ou nem tanto) de comprarem a barra de chocolate premiada terão direito a um passeio pela fábrica, com um adulto responsável como acompanhante. Em tempos de “Big Brother Brasil” e outros concursos para celebridades instantâneas, a lógica de um concurso ao final do qual uma das crianças será premiada com um presente especial, é já algo bastante familiar para audiência. Na época do livro e do primeiro filme, esse tipo de evento devia aparecer como uma excitante novidade.
Nessa seleção do vencedor está a essência do filme, a lição que a história pretende ensinar. O vencedor da competição é justamente aquele que é apresentado logo no começo como alguém sem nenhuma qualidade especial: nem mais bonito, nem mais inteligente, nem mais habilidoso que qualquer criança. A única qualidade de Charlie Bucket é a de ser apegado a sua família. Nesse momento, há um curto-circuito: o filme propõe uma abordagem levemente crítica da alienação mercantilista da sociedade contemporânea, ao mesmo tempo em que tenta reabilitar a família como um pilar para valores morais positivos? Há aí uma contradição aparente. Nas décadas em que o livro e o filme original foram concebidos, ser crítico era ser contra a família.
            Na virada dos anos 70, a crítica à família era uma atitude progressista. A família era mais uma das instituições da sociedade burguesa-ocidental-cristã-patriarcal a ser demolida pelos ventos libertários da contracultura e da revolução dos costumes. O pátrio poder dos pais sobre os filhos era o protótipo de onde derivavam todas as formas de poder autoritário: o do professor, do patrão, do padre, do policial, do governante, etc. Estava em voga a emancipação das mulheres em relação aos homens, assim como a dos jovens, adolescentes e crianças em relação aos pais. Essa crítica guarda ainda hoje algo de sua validade, mas ela precisa ser relativizada e contextualizada. A família nuclear burguesa permanece um mito a ser desconstruído e substituído por relações mais autênticas, pautadas em compreensão e afeto. As crianças moralmente degradadas do filme são justamente as vítimas desse modelo de família opressivo e asfixiante.

            Entretanto, onde a família tradicional opressiva entrou em decomposição não foi por escolha consciente e emancipada dos seus membros, mas por uma degeneração das condições de existência. Nos países pobres e nas famílias proletárias, como os Buckets do filme, a sobrevivência da família como instituição é em certos casos um fator positivo de estruturação que impede a infância e a adolescência de derivarem sem rumo para a ociosidade, a mendicância, e o crime. A família, quando estruturada, mantém liames básicos do indivíduo com certas promessas civilizatórias, como educação e emprego. Quando esses liames se rompem, o indivíduo não encontra autonomia e sim barbárie.
            O que fica, além do final feliz (e do delírio visual) é um retrato bastante fiel dos perigos que cercam a infância na nossa época, tão profundos e disseminados quanto o gosto por chocolate e o corolário que o acompanha, as inevitáveis cáries…
Colaboração textual:
Daniel M. Delfino